O perigo da “insoberania” de dados
A palavra soberania nunca foi tão crítica para o Brasil. Em tempos de guerras geopolíticas, disputas digitais e narrativas globalizadas, ela precisa ser aplicada com seriedade também ao nosso setor tecnológico.

Por Nichollas Marshell*
A palavra soberania nunca foi tão crítica para o Brasil. Em tempos de guerras geopolíticas, disputas digitais e narrativas globalizadas, ela precisa ser aplicada com seriedade também ao nosso setor tecnológico. O país está exportando diariamente milhões de dados estratégicos para o exterior. E faz isso de forma silenciosa, rotineira e, pior, muitas vezes com autorização legal.
A verdade é que esse processo não é novo. Desde que a tecnologia da informação se popularizou, passamos a deixar rastros digitais a cada ação. Fotos, documentos, conversas, movimentações bancárias e hábitos de consumo circulam por servidores que, em sua imensa maioria, estão fora do território nacional. E tudo isso com o nosso consentimento. Quando adquirimos dispositivos ou aceitamos termos de uso de plataformas digitais, estamos, muitas vezes sem ler, permitindo que essas informações sejam processadas e armazenadas por terceiros.
No ambiente de consumo, esse fenômeno pode parecer banal. A relação entre empresas e clientes naturalmente envolve dados. O problema se agrava exponencialmente quando entramos no território sensível das informações públicas e governamentais. Não se trata apenas de vazamentos acidentais. O fornecimento contínuo e legalizado de dados estratégicos a servidores internacionais compromete diretamente nossa autonomia como nação.
Se a infraestrutura de dados do Brasil continuar dependente de sistemas hospedados fora do país, estaremos entregando de bandeja um ativo crucial: a inteligência estratégica do nosso povo, das nossas instituições e das nossas decisões. É por isso que o debate sobre a adoção de inteligência artificial em serviços públicos precisa ir além da inovação. Ele passa, necessariamente, pela soberania.
Nos últimos meses, conheci uma iniciativa chamada Amazonia IA, uma inteligência artificial desenvolvida para operar com segurança total em servidores localizados no Brasil. Fundada por Nelson Leoni, ex-tenente do Exército e consultor de governos, a solução surgiu da percepção clara de que o país precisa de independência tecnológica real. Com uma trajetória de vida marcada por missões internacionais e superação pessoal, Leoni decidiu investir no que pode ser uma virada de chave para a administração pública brasileira: uma IA nacional, com total controle sobre os dados que processa.
Essa iniciativa é um exemplo do que pode (e deve) ser feito. Além da Amazonia IA, existem diversos projetos sociais, startups e centros de pesquisa com propostas concretas para desenvolver soluções tecnológicas com base em infraestrutura brasileira. O que falta é articulação nacional, incentivos claros, e principalmente, laboratórios e estruturas dignas para os nossos estudantes e pesquisadores.
O maior inimigo do Brasil hoje não é a tecnologia estrangeira, mas a nossa resistência ao novo. O mundo digital não espera. Ele atropela quem hesita. Por isso, mais do que buscar soberania, precisamos desenvolver inteligência natural para reconhecer tendências e agir com rapidez.
Acredito profundamente no poder da ciência e da tecnologia como vetores de transformação social. Acredito que o Brasil tem capacidade intelectual, técnica e humana para se tornar protagonista em inovação. Mas para isso, precisamos agir. Agora.
Nichollas Marshell é Presidente da ICT Ideas Hub – Paraná

